segunda-feira, 11 de maio de 2009

A natureza não é reciclável?

OK. Minha paciência se esgotou. Não aguento mais ouvir o mantra "salve o planeta!", nem sobre sustentabilidade ou sobre como economizar energia, água e reciclar o meu lixo para salvar o planeta.
A paciência esgotou quando fui ao supermercado aqui do bairro e eles criaram uma campanha para incentivar os clientes a "salvarem o planeta". O cliente que usar sacolas retornáveis (de pano) ganha descontos em alguns produtos. Está escrito no cartaz que anuncia o incentivo "A natureza não é reciclável!". Alguém consegue bolar uma frase mais idiota do que essa? O interessante é que eles fazem essa campanha de salvar o planeta enquanto trocam o sistema de cartões de estacionamento. Eles trocaram os cartões de plástico que era entregue por uma pessoa a cada pessoa que entrava no supermercado de carro, para um sistema automático que imprime um papelzinho pra cada um que entra no supermercado de carro. Não sou nenhum gênio da ecologia pós-moderna atual, mas não era menos nocivo ao planeta o sistema com cartões de plástico que possuiam um número limitado (limitado ao número de vagas disponíveis) para ser entregue aos motoristas, do que um sistema que imprime um pedacinho de papel toda vez que uma pessoa entra no estacionamento e depois tem que jogar fora o papelzinho? Por exemplo, eu vou 4 vezes por semana ao supermercado. Isso quer dizer que a máquina vai imprimir quatro pedacinhos de papel nas quatro vezes que eu for até lá e eu vou jogar 4 pedacinhos de papel no lixo toda vez que voltar pra casa. 4 vezes por semana, 16 vezes ao mês, 192 vezes no ano. 192 pedacinhos de papel jogados fora, desperdiçados, só para que a máquina possa erguer sua cancela e eu possa entrar no estacionamento. Multiplique isso por 600 clientes que utilizam o estacionamento por dia e veja quantas arvorezinhas vocês estão matando só para que os outros possam estacionar seus carros no estacionamento. Mas ei, a natureza não é reciclável, então trate de ir ao supermercado de carro com sua sacolinha retornável.

E isso é só um caso. Domingo, no Fantástico, mostrou uma família que aceitou participar de um quadro do programa sobre mudanças de hábito, e claro, um dos hábitos novos da família é o de "salvar o planeta". Diminuir o consumo de energia, de água e colocar o lixo pra reciclar. Dizia no programa que a família conseguiu diminuir o consumo de energia em quase 20%, e aí mostrou um quadro mostrando que se todas as famílias do Brasil fizessem aquilo a economia gerada seria o equivalente a manter o Brasil inteiro com energia por 2 dias. Pois bem, tudo isso é muito bom, muito bonito, muito amigo do planeta. Mas poderiam informar que 70% de toda a energia que o Brasil gera é gasto na indústria. Que tal fazerem um programa de mudanças de hábito com os donos das indústrias de maior consumo de energia do país? Que tal bater na porta da Volkswagen, lá em São Bernardo, levar a especialista em economia e tentar fazer a indústria gastar menos energia? De acordo com a EPE, o consumo de energia na indústria cresceu 6,8% em março desse ano. Uau! E ninguém fala nada? Querem colocar todo o fardo de salvar o planeta nas costas dos cidadãos? As empresas estão isentas dessa responsabilidade? A culpa do efeito estufa é minha? O aquecimento global é só culpa minha? É só o meu carro que polui? As indústrias não poluem? O ar de Cubatão é mais limpo que o ar que sai do escapamento do meu carro?
Na matéria do Fantástico mostrou também que a família conseguiu diminuir o consumo de água por pessoa de 200 litros para 90 litros. Excelente economia. Mas quem será que gasta mais? 70% do consumo diário de água no mundo vai para a agricultura. 20% para a indústria. E sabe o quanto você e as outras 6 bilhões de pessoas no planeta gastam em suas residências? Menos de 10%. Mas as campanhas de economia de consumo de água são voltadas para quem, somente? Você.
De toda a área utilizada para a agricultura, menos de 1% utiliza o método de gotejamento, que é o método mais eficiente na relação de alimento produzido por litro de água utilizado. Então quem é o incompetente aqui? Eu, que gosto de tomar banho, ou o agricultor que insiste em irrigar de forma irresponsável sua plantação?

Na verdade, o que ninguém fala é do melhor método de "salvar o planeta": Controle de natalidade. Somos 6 bilhões de humanos no planeta. Se fossemos 3 bilhões o mundo estaria bem menos poluído, haveria comida para todos, água para todos, terra para todos, menos poluição, menos desmatamento, menos agressão ao meio ambiente. Mas alguém se importa com isso? Não. Porque Deus disse que toda vida é sagrada. A mentalidade cristã está impregnada em todos. A grande maioria quer ter um filho, presenciar "o milagre da vida". Mães irresponsáveis dão à luz crianças sem ter como sustenta-las. Mulheres engravidam para conseguir o benefício do bolsa-família, do bolsa-escola.

Salvar o planeta é muito bonito, desde que não batam na sua porta e peçam para que você deixe de fazer algo que você julga importante pra você, ou na indústria que iria produzir menos e obter um lucro menor.

O supermercado faz sua campanha para que você utilize sacolas retornáveis para que ele diminua o gasto com sacolas plásticas, ao mesmo tempo que instala um sistema automático de cancelas no estacionamento que desperdiça uma quantidade inacreditável de papel, para que não precise pagar salários, plano de saúde, aposentadoria, para os funcionários que ficavam na entrada entregando e recebendo os cartões de plástico dos clientes.

No fim, estamos tentando salvar o planeta de quem?


"Save the trees, save the fish, save the air
But what about the children?
Stop fucking having children!
.
.
.
You say everything we do is gonna hurt our Mother Earth
Toxic waste and oil spills also did our Mother birth."
(S.O.D. - Black War)

2 comentários:

Eu.com.baunilha disse...

Como sempre, um ótimo texto. Vale lembrar também que a conscientização de preservação do meio-ambiente começou forte na década de 60, quando arquitetos e designers já falavam sobre os problemas que estavam surgindo e como evitá-los (na época ainda era prevenir, hoje é remediar). O problema é que as empresas cortão verbas, pra embolsar mais. E as primeiras coisas que eram cortadas na planilha de um projeto naquela época eram "sistema de reaproveitamento de águas pluviais", "isolamento térmico para conservação de energia", "otimização de utilização de luz natural", e por aí vai. Hoje tá na moda essa coisa não porque as empresas ficaram amiguinhas do Planeta, mas porque, seguindo as regras mínimas com pouco investimento, ganham o ISO 14000, e aí ficam bonitas na fita. É só mais uma maneira de marketing, ou melhor, era no início do ISO 14000, hoje a empresa que não acompanha fica fora do mercado... Mas também, o sistema é estúpido... Fazem o mínimo só pra atingir os pontos, e eu aposto que o lance dos papeizinhos do estacionamento são tão comuns que não contam pontos negativos no ISO. O pensamento das empresas é simples: Foda-se o planeta, só faz o necessário pra ganhar um selinho de qualidade, um status de empresa com responsabilidade ambiental (sem entrar no social e todos os outros padrões de qualidade que só são seguidos para fazer marketing).
Há pouco o arquiteto português Eduardo Souto de Moura fez um comentário ótimo sobre isso... É completamente estúpido falar em arquitetura sustentável hoje, só porque está na moda. Arquitetura TEM que ser sustentável, e se é boa, SEMPRE foi sustentável. Arquiteto que começou a pensar em sustentabilidade só agora, na onda verde, não merece o título de artuiteto.

Moisés disse...

Eu iria um pouquinho mais longe...
Será que com esse tipo de campanha, eles num conseguem alguma isenção fiscal?
Há vários incentivos do tipo...
Daí a administração faz as contas:
- Sai mais barato ajudar o planeta ou continuar poluindo?
- Passe-me a calculadora!

Essas atitudes não têm nada de bondade ou consciência envolvidas.
E achei fantástica essa divulgação de dados!! Nunca parei pra mensurar quanto gastamos!
Em comparação com indústrias e com a agricultura, gastamos muito pouco, quase nada! E o tempo todo estamos sendo pressionados, sendo que a diferença para o planeta seria mínima se a mudança partir apenas de nós.
O nosso atual sistema econômico leva ao colapso. Capitalismo desenfreado, não sustentável.
Achei fantástica essa conclusão...
Parabéns pela divulgação desses dados. Acho que isso deveria ser repassado para um local de mais acesso e discussão!